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A Maresia das Sensações
…

Viviam para a aventura, e nada poderia mudar isso. Juntos sentiam-se capazes de alcançar tudo, até mesmo o impossível.
Eram jovens, e com os sonhos demasiadamente à flor da pele. Tudo parecia perfeito, e sentiam-se irrefutavelmente abençoados.
Eram capazes de tudo, e o céu não era de todo o limite. Havia sempre mais… E cada aventura, os tornava mais próximos e verdadeiramente mais cúmplices.
Faziam planos para o futuro, e tudo parecia demasiado perfeito, para porem em causa, a concretização dos mesmos planos.
O futuro estava muito longe, e isso era óptimo, porque significava, que ainda havia muito por viver, descobrir e fazer. Não se cansavam um do outro, porque tudo era demasiado aliciante e saboroso, para poder vir a ser possível tal coisa. Pelo menos pensavam assim… E acreditavam! E sem dúvida, que acreditar, fazia toda a diferença, na dose extra de felicidade, que esta simples palavra, provocava no quotidiano de dois adolescentes esperançosos.

- Traz uma toalha e guardanapos! – Disse-lhe o rapaz moreno, dono do seu coração.


Havia sempre uma nova aventura. Era bom ser criança, e fazer tudo sem medo de julgamentos, ou achegas de bom senso. Era bom viver a vida, daquela forma tão simples e ao mesmo tempo tão especial.
Beijavam-se apaixonadamente, abraçavam-se e brincavam como crianças, que nunca deixaram de ser. Ela não fazia questão de deixar, porque era assim que vivia plenamente.
Era bom sentir aquele, que parecia ser feito do mesmo que ela. Completavam-se, e precisavam um do outro, para seguir em frente.

- Trouxeste o que te pedi? – Reclamou ele sorridente.


Claro que tinha levado tudo. Já suspeitava o que viria dali para a frente, mas concerteza que o destino seria diferente. Porque o rapaz moreno, o dono do seu coração, não se contentava com o já adquirido. Queria ser diferente, e fazê-la sentir-se diferente e especial.
A verdade, é que sem ele saber muito bem como, fazia-a sentir-se uma princesa, no seu reino improvisado.
Compraram umas porcarias, para enganar o bom gosto dos seus estômagos esfomeados, e fizeram um piquenique no meio de um jardim. Passava imensa gente, enquanto eles devoravam o manjar dos apaixonados.
Ela adorava a aventura, mas ao mesmo tempo, havia sempre alguma coisa, que a deixava renitente, mas ele desde logo se incumbia de a deixar à vontade sem pensar em maneiras, ou o que restavam delas.
O momento, esse, era importante demais, para ser quebrado, com regras fantoche, criadas por quem decidiu, fazer algo que complicasse um pouco a vida do inteligente ser humano, que tinha que ser obrigatoriamente, diferente de todos os animais que habitavam a terra.

- Ainda é cedo, vamos até à praia? – Propôs ele novamente.


A noite teimava em ganhar terreno à luz solar, e fazia-se sentir de uma forma galopante. Sentaram-se no areal, quando já era noite cerrada. Cerrada, mesmo para os distraídos, que teimavam em não saber distinguir, o dia da noite.
Estenderam as toalhas de praia no areal, e sentaram-se a ver o mar. Abraçaram-se, como se o contacto entre os dois, fosse uma questão instantânea e inevitável, senão mesmo necessária.
Ele beijou-lhe os cabelos doirados, e disse-lhe ao ouvido o quanto a amava, sem medo de nada que viesse dali para a frente.
Ouvir as suas palavras, faziam-na sentir cada vez mais segura, do quanto era importante aquele sentimento, que os uniu, e que ela achava impossível, um dia vir a separá-los.
Beijaram-se como sempre. Com o carinho constante de um primeiro beijo, e a paixão e saudade de um último beijo.
Eram jovens, e viviam um para o outro, sem responsabilidades de maior, e sem a dúvida de que o corpo de um, vivia para o corpo do outro.
Havia, uma necessidade constante, de se sentirem. Mais e mais… Não havia cansaço, problemas ou pouca disposição. Fazerem amor, era como uma oração necessária, para revitalizarem os corpos e acalmarem a paixão, que os deixava com a cabeça dormente, de tantos sobressaltos.
As mãos dele foram invadindo as suas costas, e como num toque de magia, tirou-lhe a tshir-t.
Ela puxava-o para si, com mais vontade, e com a certeza, que queria fazer mais uma vez amor com ele. Mais uma, e todas as vezes que a vida lhe permitisse. Só queria sentir aquele que tanto a conhecia, e que tanto a estimava. Como nunca achara ser possível.
Enrolaram-se na areia, com a paixão a comandar os corpos jovens as viris, que faziam de tudo, para se satisfazerem e dar prazer um ao outro.
Fizeram amor naquele areal, e ficaram a olhar as estrelas, a dar graças aos céus por existirem, para poderem sentir tamanha felicidade e tamanha realização.
Não poderia existir, nada no mundo, tão perfeito como momentos como aqueles. Ambos sentiam isso, e era para eles, uma realidade irrefutável.
Era bom amar e ser amado. Ainda mais quando era um amor adolescente e inocente, que não os restringia nem lhes proporcionava limites.

- Vamos para casa? – Disse-lhe ela com a expressão mais satisfatória do planeta.
- Sim. Tenho de te deixar em casa, e ir a correr para não perder a camioneta.
- Até amanhã meu amor. Liga-me sim? Eu amo-te!
- E eu amo-te a ti, princesa!

Era o momento de chegar a casa, e dar explicações à mãe, de por onde tinha andado, e de arranjar uma boa desculpa, para o montão de areia que se tinha alojado na sua roupa.
Depois desta, quase simples, missão cumprida, dava inicio ao seu banho demorado, que ajudava-a a fixar as memórias todas na sua cabeça, e no seu coração jovem.
Entrava na cama feliz, e com vontade que o tempo passasse rápido até ao próximo encontro.
Sentia-se realizada, e nem sabia bem porquê. Mas tinha a certeza, que o seu namorado, o rapaz moreno de olhos esverdeados, estava sem dúvida na origem de tamanha realização.

…



Era domingo e Maria não queria de todo pensar nos problemas. Mas começar a resolvê-los, e começar também, a combater as suas dúvidas e manias do século passado.
Fez todo o seu ritual feminino, e dirigiu-se à casa da mãe, para o almoço típico domingueiro, que já vinha dos tempos, em que ainda nem noção tinha, de que era gente.
A sua mãe de feitio rabugento, era a pessoa que mais tinha apreço na vida. Nos seus tempos de rebeldia, chocava imenso com a sua progenitora, devido ao seu jeito de menina dona da palavra.
Mas a vida fez-lhe ver com clareza, que não valia a pena, perder tempo, com as discussões típicas, entre mãe e filha. Com a sabedoria, aprendeu, a rir-se de toda a rabugice da sua mãe, que apesar de ser uma pessoa pouco acessível, sempre a ajudou e lhe cedeu o seu ombro, para Maria poder chorar as suas mágoas.
Quando a mãe lhe abriu a porta, e ela subiu as escadas, e como era de esperar, não encontrou a mãe, de braços abertos, para a abraçar. Ela já sabia que o seu jeitinho difícil, não lhe permitia tal gesto, tão gentil. Mas sabia de fonte segura, que estava ansiosa para recebê-la, apesar de à primeira vista, não o parecer. Mas isso é que a tornava realizada, por cada vez, que travava contacto com ela.

(Continuação)

P.S: Se quiserem ler as partes anteriores, só basta clicarem em cima, onde diz A Maresia das Sensações a verde... E vão ter acesso.

Histeria só minha


Coelha*

A Maresia das Sensações


Maria fechou os olhos, e ergueu a sua face aos céus, na esperança que algo de bom atropela-se a sua vida.
Já estava farta de ver o mundo tão cinzento, depois de saber que este não o era, mas que simplesmente era ela, que o via desse modo.
Começou a surgir-lhe nos pensamentos, o estranho que tinha sentado no seu lado. O mesmo que partilhava com ela, aquele momento de descontracção e de pura paz com o mundo. Quem seria? Não se quis questionar muito, porque sentia que este era incapaz de lhe fazer mal.
O estranho decidiu interromper-lhe o silêncio – Isso é algum tipo de ritual?
Maria abriu os olhos e olhou para ele – Não… Porquê?
- Estás tão concentrada… - Falou baixinho.
- Estava a pensar em coisas sem importância… - Respondeu enquanto acenou um não com a cabeça.
- Alguma importância há-de ter, para estares ao lado de um homem como eu e nem quereres olhar para mim – Começou a troçar dela.
- Convencido, és tu que chegue!
- Olha e tu devias ser mais!
- Ai sim? E quem te disse que não sou?
- Se fosses não estavas aqui, e não te manterias solteira.
- Não fales do que não sabes…
- Até és uma mulher bonita!
- Estás-te a fazer a mim?
- Não… Mas até era capaz disso. Mas hoje não me apetece muito. – Olhou noutra direcção enquanto se ria.
- Pronto está bem… - falou num tom mais controlado.
- Não chores… Quem sabe amanhã…
- Tinhas de me irritar? Eu bem vi que era melhor termo-nos mantido em silêncio… Vou-me embora. – Começou a levantar-se.
- Acho que fazes bem… Já está a ficar tarde! – Continuava com um sorriso nos lábios.
- És sempre tão insuportável?
- Às vezes sou pior…
- Bem… Adeusinho. – Pegou na mala e começou a caminhar em direcção ao carro.
- Até amanhã! – Disse ele de novo.

…

Enquanto Maria caminhava, esboçava um sorriso estranho. Nem ela própria sabia muito bem a origem do mesmo. “Aquele homem é meio doido!”, começou a pensar vezes consecutivas.
Já não estava a pensar o mesmo, que tinha pensado horas antes, sobre ele.
Quando deu conta, do tempo que estava a perder com aqueles pensamentos… Logo os enxotou. De seguida, começou a cantarolar uma música.
Começou a sentir, que estava verdadeiramente carente… Sentia falta de um homem na sua vida. Para ir ao cinema ou jantar fora… E para uma noite de amor, “Que saudades, de sentir umas mãos masculinas a percorre o meu corpo.”.
Começou a tentar mentalizar-se que o príncipe encantado, nunca iria aparecer. Para a levar para o paraíso e a fazer sonhar. Isso não existia, muito menos o homem perfeito…
Seria devido ao facto de ser romântica demais, que estava sozinha à tanto tempo? Sem qualquer relacionamento com um homem, nesse período de tempo de solidão amorosa?
Talvez a solução, seria deixar de ser tão dramática e atirar-se à aventura. Haveria de ter mais tempo e menos cansaço para pensar melhor sobre este assunto pertinente. Afinal de contas, pensar tinha-se tornado o seu passatempo predilecto nos últimos tempos.


(continuação)

P.S: Se quiserem ler as partes anteriores, só basta clicarem em cima, onde diz A Maresia das Sensações a verde... E vão ter acesso.


Histeria só minha


Coelha*
A Maresia das Sensações

Uma coisa era certa, não haveria de voltar àquele sítio, não queria problemas.
A imagem daquele homem, surgia-lhe na cabeça, e tentava encontrar algo que lhe transmitisse interesse, mas era impossível. Aquele ar de homem desleixado, aquela arrogância… E o facto de ele saber que agora costumava ir àquela praia a deixava desconfortável. Não poderia voltar a fazê-lo. Pelo menos tão cedo.

...

Naquela noite ia sair para se divertir com o seu grupo de amigas. Decidiram marcar uma saída só de mulheres. Mas Maria, tinha a perfeita noção que aquela condição não passava de pura solidariedade da parte delas.
Ela era a única que não tinha companheiro, e isso fazia com que muitas vezes recusasse convites, porque não se sentia muito bem ser a única do grupo que se encontrava sozinha.
Então as amigas, decidiram marcar alguma coisa que não metesse homens à mistura, para a Maria se sentir mais à vontade, visto que a vida dela não era propriamente divertida e feliz.

Arranjou-se o máximo que pôde para se sentir bonita. Como mulher que era, adorava se produzir simplesmente para se sentir bem. Maquiou-se, vestiu a roupa que achava que mais a favorecia, calçou uns sapatos de tacão alto e saiu na esperança de ter uma noite divertida com as suas mais que tudo.

Jantaram juntas, e riram-se bastante com as coisas boas e más da vida. Era esta capacidade de se rirem dos problemas que a mais encantava. Não traçava as suas amigas por nada no mundo.

- E se fossemos até àquele bar beber umas Caipirinhas? – Disse a Sofia entusiasmada.
- Ai sinceramente… Queria era ir para a cama! – Resmungou a Maria enquanto suspirava.
- És uma chata Maria. Vamos todas sair como combinado! – Ordenou a Raquel.
Até que a Maria se convenceu. – Ok. Vamos a isso então.

Na viagem as amigas iam falando de uns homens interessantes que conheciam nesse bar. A Maria entendia perfeitamente, que esses amigos estavam destinados para ela. Mas mesmo não achando muita piada à conversa, ia-se rindo com os comentários.
Quando entraram no bar, lá estavam os dois amigos sentados numa mesa, com a cabeça virada para a entrada como se ansiassem já a chegada.

- Ali estão eles, vês Maria? São aqueles! – Comentou a Raquel enquanto lhes acenava com a mão.
- Sim estou a ver, mas não vamos para aquela mesa pois não? – A Maria apesar de saber a resposta, fez a pergunta com a esperança de ouvir o que não esperava.
- Mas é claro que vamos! Diz lá se não são lindos! Então o Rodrigo, é o sonho de qualquer mulher! – A Raquel demonstrava estar entusiasmada.

Entretanto chegaram à mesa sem a Maria ter mais hipótese de dizer que não.

- Boa noite! Cá estamos como prometido. – Disse a Raquel com um sorriso rasgado.
- Boa noite meninas. Já que não nos apresentas eu sou o Rodrigo. Muito prazer. Tu deves ser a…
- Maria. – A Maria não estava com cara de grandes amizades.

Cumprimentaram-se todos, e não descoraram das apresentações. Depois de já estarem sentados o Rodrigo corta o silêncio – Pois é Raquel, a tua amiga é lindíssima como já me tinhas dito.
- Eu não te disse? Só tenho amigas bonitas!
- Obrigada pelo elogio, mas agradecia que não falassem como se eu não estivesse presente. – Respondeu a Maria com um quê de arrogância.
- Não lhe ligues Rodrigo. Ela queria ir para casa… - Interrompeu de imediato a Raquel.
- Porquê?
- Estou cansada, só isso… E além do mais, desculpem mas acho que vou indo. Estou mesmo a precisar de descansar. Voltamo-nos a ver um dia por aí, ok?
- Mas já vais? – Disse a Raquel com cara de chateada.
- Vou sim. Acompanhas-me até à porta?

A Maria despediu-se de todos e foi-se dirigindo à saída, enquanto puxava a Raquel por um braço.

- Raquel, eu quis vir sair com vocês! – Desta vez falou num tom mais alto.
- E não estamos todas juntas? Que infantilidade, o rapaz é simpático! – Respondeu de imediato.
- Mas não me devias ter perguntado se eu estava com vontade de conhecer um “rapaz simpático”?
- Não vale a pena chatearmo-nos. Amanhã eu ligo-te…
- Sim. Até amanhã.

A Maria estava chateada principalmente consigo mesma. Não tinha verdadeiramente qualquer vontade de conhecer alguém. Pelo menos naquele dia. Estava à espera de ter uma noite descontraída com as amigas, e não tinha gostado da ideia, de terem marcado uma saída com uns supostos partidos para si. Tudo isto com a finalidade de que um deles lhe curasse aquela tão grave doença – Estar solteiríssima.
Olhou para as horas e era demasiado cedo para ir para casa, e como estava uma noite abafada de verão decidiu ir até à praia mais uma vez. Nem que fosse por pouco tempo, mas naquele momento não se sentia com vontade de se meter em casa.
Quando chegou, decidiu ir para o mesmo lugar, mas quando se aproximou reparou que estava um homem deitado no muro de barriga para cima e com as mãos por debaixo da cabeça.
Não faltavam pessoas a passear naquela noite fantástica. Decidiu aproximar-se mais e quando chegou bem mais perto, reconheceu o homem que lá estava acampado. Era o mesmo que a tinha perturbado naquela tarde, exactamente naquele sítio.
Por momentos hesitou. Não sabia se deveria se aproximar ou simplesmente dirigir-se a outro sítio. Mas como por impulso decidiu chegar-se mais perto daquele desconhecido.
Quando já estava do seu lado, tossiu, para dar sinal de presença.

- Por aqui? – Disse ele sorrindo.
- Ia perguntar o mesmo. Acha que são horas para estar deitado nesse muro, que em nada se assemelha com um colchão? – Retorquiu com uma expressão de gozo.
- Ai acha que não? Diz isso porque nunca se deitou aqui… Senão já tinha entendido o quão confortável pode ser este muro.
- Não me diga? Quem olha assim de repente, não tem essa percepção. – Desta vez tapou a boca para esconder a vontade de se rir.
- Está animada hoje. Quem diria que de tarde foi tão insuportável!
- Acha mesmo? – Torceu o nariz.
- Acho. E já agora vem de um casamento? Não se deve ter produzido toda, para vir até à praia ver se me encontrava. – Soltou uma gargalhada.
- O seu sentido de humor fascina-me sabe? Foi por isso que cá vim… Santa paciência! – Tentou demonstrar um ar sério.
- Quer se sentar? A minha casa é a sua casa… Por favor… - A sua mão apontava para o muro.
- Acho que vou aceitar o convite – dirigiu-se apressada e sentou-se num abrir e fechar de olhos.
- Então diga-me lá o que a trouxe aqui… - Perguntou, olhando com um ar sério.
- Uma história curta, mas que não me apetece falar sobre ela. – Falou baixinho.
- Resumindo, a noite não correu bem?
- Exactamente isso! Já agora, quero que saiba que não costumo falar com estranhos e hoje depois de ter saído daqui, fui pelo caminho a acha-lo verdadeiramente ridículo. Mas agora depois de cá ter chegado e de o ter visto aqui, não resisti em falar-lhe. – Falou apressadamente como se quisesse dar uma explicação convincente.
- Agora conseguiu ver o quanto interessante eu sou… Eu entendo-a! Costuma acontecer sempre isso, com todas – Olhou em direcção ao mar e começou-se a rir. – Já agora posso-me apresentar?
- Não, não é preciso. Podemos falar sem nos conhecermos? Formalmente. Nome, idade, profissão… Preferia assim…
- Como queira desconhecida, que assim seja. Mas só mais uma pergunta. Deve ter quase a mesma idade que eu… Porque não deixamos de lado o “Você “ e não passamos a tratar-nos por Tu?
- Combinado. Estás contente? – Esboçou um sorriso.
- Assim está bem melhor.
- Não te importas de não falarmos mais?
- Queres que te deixe sozinha? – Disse ele com um ar de desilusão.
- Não, não! Fica comigo, mas não me apetece falar. É só isso…
- Sim, pode ser.


(continuação)

Histeria só minha

Coelha*

A Maresia das Sensações


Levantou a cabeça e olhou para a mala, “Vou lá fora fumar um cigarro”. Pegou nas chaves e bateu a porta do carro.
Começou a andar em direcção à praia, enquanto ia acendendo o cigarro. Depois de uma puxada de fumo, a partir do seu melhor amigo, fechou os olhos por segundos e sentiu o cheiro alucinante da maresia.
- “Estou viva.”.
Quando chegou à praia sentou-se no muro que delimitava a zona balnear do passeio, e terminou de saborear o cigarro.
Agora ali parada, começou a observar melhor o que a rodeava. Conseguia entender a importância daquele mar, e era bom ver as pessoas saírem da praia, contentes e a sorrir, tudo aquilo era mágico. Todos aqueles momentos aparentemente tão simples e básicos faziam toda a diferença na vida de um ser humano que tem os seus afectos.
Pôs-se a pensar novamente, que já tinha tido momentos assim, que apesar de no momento em que os viveu ter sentido uma felicidade imensa, nos momentos a seguir, se calhar esqueceu-se com facilidade do verdadeiro valor que estes tinham.
O ser humano era assim. Dava valor ao que não tinha e às coisas do passado. Já tinha chegado a essa conclusão. À bastante tempo. Mas na verdade, quando avaliava bem o seu dia-a-dia, via com clareza que não existia nada que a motivasse, a não ser o seu trabalho.
Olhou para aquele areal, e pôs-se a imaginar tudo que já tinha vivido sobre ele. Tudo à sua volta continha uma história, tudo. Mas estar ali naquele fim de tarde representava para ela um grande avanço. Conseguiu sair, conseguiu enfrentar o mundo sozinha, sem ser com um ombro amigo do lado, e isso deu-lhe um certo poder interior e uma sensação inconfundível de libertação.
Não significava que não continuava a viver atormentada com os mesmos assuntos, mas já não vivia tanto em função deles.
Ficou ali, por uma hora a organizar as ideias. Depois disso quis voltar, porque queria jantar em casa. No caminho até ao carro foi a cantar e a olhar para o céu com um olhar esperançoso em relação ao futuro. Agarrou uma madeixa dourada do seu cabelo, e passou-o pelo nariz e sentiu de imediato o odor do mar impregnado. Sorriu.

Chegando a casa, decidiu pegar nas velhas recordações todas e encaixota-las. Aquele passado tinha de morrer ali, e caso isso continuasse a ser praticamente impossível, não haveria de ter nenhum objecto com ligação às lembranças ao seu alcance.
Em seguida tirou a roupa e entrou no duche. Ficou ali uns bons minutos com a água quente a desenhar-lhe o corpo.
Sentia-se feliz, apesar de tudo que a chateava, e tinha a certeza que no dia seguinte haveria de ir novamente à beira mar, dar um passeio para aliviar a cabeça e purificar a mente.
Saiu do banho e olhou-se ao espelho. Observou o seu corpo, a sua pele, as suas formas e o seu rosto. Passou as mãos pelos cabelos e naquele momento lembrou-se que ainda era uma mulher jovem demais, para se resignar às tristezas da vida. Sentiu-se bonita, e capaz de ser desejada por qualquer homem do mundo. Menos por um. O único que ela desejava que estivesse por perto, o mesmo das suas lembranças persistentes.
Afastou os pensamentos, vestiu-se e foi jantar.


…


Tinha passado o dia a pensar se haveria de voltar àquela praia, e fazer desse momento um ritual diário. A ideia agradava-lhe mas a preguiça desmotivadora dizia-lhe constantemente um “Não”.
Acordou bem, e começou a pensar se a boa disposição estaria mesmo relacionada com o passeio do dia anterior.
Decidiu deixar os dilemas de lado, preocupava-se demais com coisas que não deveriam ter importância nenhuma. A verdade é que estava de férias e queria aproveitá-las.
-“Vou de novo!”.
Quando saiu do carro, voltou a repetir o gesto. Acendeu um cigarro, e tornou a fechar os olhos por segundos e sentiu mais afincadamente a vida.
Quando chegou à praia voltou a sentar-se no mesmo muro e praticamente no mesmo sítio que o da primeira vez.
Sentia a cabeça vazia, e não haveria nada melhor que isso para aquela mulher que passara tanto tempo com os mesmos tormentos.
A sensação dos cabelos a esvoaçar com o vento, era inconfundível e até o arrepio na pele que este lhe provocava era demasiado delicioso para a incomodar.
Enquanto saboreava aquele momento, os seus olhos foram atropelados pela visão do homem que se sentou do seu lado. Observou-o por cima do ombro com um olhar desconfiado e um pouco ou quanto de desprezo.
Tornou a olhar para o mar, mas a curiosidade levou-a de novo para aquele homem que se sentou perto demais de si, visto que o que mais queria naquele momento era se sentir só, mesmo sabendo que centenas de pessoas passavam à sua volta.
Então viu-o a tirar um livro da mochila de uma forma apressada e até nervosa, e nesse momento ocorreu-lhe logo um pensamento “Há pessoas muito estranhas”.
Aquele homem tinha a barba por fazer, uns calções de praia encorrilhados, e uma tshir-t com aspecto de já ter corrido várias gerações.
Não sabia bem o porquê mas gostava de observar os outros, nunca o fazia com maldade. Mas desde do tempo que mal conseguia juntar as letras que adorava observar as pessoas e tentar imaginar os seus gostos e os seus problemas.
Quando se pôs a pensar nestas coisas, nem deu conta de onde andavam os pensamentos e que na verdade continuava a olhar para aquele homem, mas no fundo nem o estava a ver. Só se deu conta, quando o desconhecido interrompe o silêncio.

- Precisa de alguma coisa? – Resmungou ele, com um sorriso estranhamente não identificável, se seria bom ou mau.
- Não, não. Porque haveria de precisar? – Maria respondeu nervosa, e um pouco envergonhada. Olhou de imediato para o mar.
- Olhe simplesmente porque quando olhei para si, estava fixada a olhar para mim. Por momentos até achei que tinha alguma coisa de errado. – Soltou uma gargalhada.
- Tem muita piada. Mas aviso-lhe desde já que mesmo que tivesse, eu não iria reparar. – Começou a bater o pé com nervoso miudinho que lhe invadia a perna.
- Peço desculpa. Perdeu alguma coisa por aqui?
- Desculpe? Não me diga que a praia é sua, se estiver incomodado retire-se. E caso não o faça, não se preocupe que sou eu quem o fará. – A perna começou a bater com mais força.
- Calma! Só perguntei porque ontem também a vi por aqui. E como hoje tornei a vê-la, achei estranho.
- Hum, não é normal, as pessoas virem ao mesmo sítio duas vezes? Pelos visto não fui a única.
- Pois, mas se está a falar de mim eu já o faço à muito tempo. E devido a isso, como pode calcular já controlo quem por cá passa. – Soltou uma gargalhada.
- Interessante. – Chateada não voltou a olhar para o estranho.
- Desculpe. – Disse-o num tom mais sério.
- Hum, hum. Bem vou-me embora, com licença.
- Até amanhã...

Começou a andar em direcção ao carro de uma forma acelerada e estava a pensar na estupidez daquela pessoa que teve de interromper-lhe o silêncio, - Até amanhã? – Pensou ela. Só podia estar doido. Apesar do seu aspecto duvidoso, a forma como falou não lhe transmitiu nenhuma segurança.


(continuação)


Histeria Só Minha


Coelha*


A Maresia das Sensações

Era uma tarde de calor e muito sol. A Maria estava em casa, completamente enlouquecida com o calor. Não tinha com quem sair, apetecia-lhe ir comer um gelado e conversar um pouco, mas encontrava-se completamente resignada à solidão entre quatro paredes. Logo naquele dia, onde todos dariam tudo para ter tempo como ela, para aproveitar aquele maravilhoso calor.
O que mais lhe custava, era habituar-se àquela nova, mas já velha fase da sua vida. Sentia-se particularmente só, mas principalmente uma solidão interior.
A verdade é que sair sozinha não a agradava. Não sabia muito bem o porquê, mas o facto de caminhar sozinha pela rua, sem nenhum destino pré-definido, fazia com que se sentisse alvo de curiosidade por parte de quem passava e a observava.
Depois de ter fintado o sol pela janela uma dezena de vezes, decidiu que naquele dia iria sair, custasse o que custasse, independentemente do seu desânimo, dizer-lhe para não o fazer.
Não fazia sentido ficar trancada, enquanto a vida corria lá fora.
No relógio estavam marcadas dezassete horas em ponto. Segundo o que este número representava, deveria ser demasiado tarde, para fazer um passeio. Mas o sol que se tardava a fugir, convidava-a consecutivamente a sair, e estava difícil recusar o convite.
Calçou umas sandálias. Pegou na mala, as chaves e saiu.
Depois de entrar no carro, ficou durante uns segundo a tentar pensar num sítio onde lhe apetecesse ir.
-“Praia!”.
Rodou a chave e seguiu. Na viagem, começa a visualizar todas aquelas imagens que a perseguiram e continuavam a perseguir durante aqueles anos todos. As mesmas vozes, as mesmas personagens, os mesmos cenários… Os mesmo porquês. Mais uns minutos perdidos no vácuo das lembranças, mágoas e dilemas.
Apesar de já ter decidido, que o passado já teria sido arquivado por ela, na estante das suas memórias não aconselháveis a ser recordadas, os seus pensamentos persistiam em leva-la sempre para aquele mundo, para aquela vida passada.
Não sabia mais o que fazer para contrariar aquela realidade, e já se fartara de ouvir sempre o mesmo conselho, “O tempo cura tudo”, afinal de contas nem o tempo a favorecia.
Aquele passado começava a ser torturante, e só queria encontrar soluções para o esquecer de vez.

Estacionou o carro e deitou a cabeça no volante. Começou a ouvir os risos estridentes das crianças, mas não tinha vontade de observar nada.


(continuação)


Histeria só minha


Coelha*

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